Ibama não se intimidará com ameaças feitas em Mato Grosso, diz diretor

Servidores foram ameaçados após esquema de extração ser flagrado.
Com chips, agentes monitoraram caminho da madeira extraída ilegalmente.

Leandro J. Nascimento Do G1 MT

Toras madeira MT (Foto: Reprodução /TVCA)Toras foram 'chipadas' para descobrir esquema.
(Foto: Reprodução /TVCA)
O diretor de Proteção Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) em Brasília, Ramiro Hofmeister, disse nesta segunda-feira (25), ao G1, que a autarquia não vai se intimidar com as ameaças feitas a servidores que atuam nas operações de combate ao desmatamento e uso de madeiras ilegalmente retiradas da floresta por empresas do setor madeireiro. O caso veio à tona após agentes flagrarem na região norte de Mato Grosso um esquema de retirada e comércio de toras.

Com auxílio de chips, os agentes da unidade regional de Sinop, município distante 503 quilômetros de Cuiabá, descobriram que boa parte da madeira extraída de uma área particular era aproveitada em empresas das cidades de Cláudia e União do Sul, segundo reportagem exibida no Jornal Hoje. Nos últimos seis anos, conforme o Ibama, o prejuízo à floresta – com a derrubada de árvores – somou aproximadamente R$ 20 milhões.
O gerente da unidade de Sinop, Evandro Carlos Selva, é um dos servidores que passou a receber ameaças após o esquema criminoso ser revelado. De acordo com ele, pelo menos 50% das madeiras utilizadas por empresas do setor madeireiro é proveniente de extração ilegal.
Para Hofmeister, as intimidações só surgiram porque Ibama e polícia estão próximos de chegarem aos chamados 'mentores' do crime. A Polícia Federal deve acompanhar o caso. Além disso, o Ibama deve receber reforço no efetivo em Mato Grosso, explica o diretor. “Não subestimamos as ameaças, mas quando elas vêm é porque os ilícitos se tornam claros”, disse Ramiro.

Para o diretor, as constatações evidenciam a existência de uma prática clandestina e que, ao longo dos anos, contribuiu para consumir a floresta. Outra infração a ser investigada pelo poder público é o aproveitamento das toras a partir de documentos 'esquentados'.
Mato Grosso figura com frequência no ranking dos maiores desmatadores da Floresta Amazônica. Na última semana, dados divulgados pelo Imazon mostraram que na unidade federada o desmatamento realizado entre agosto de 2011 a maio de 2012 totalizou 292 quilômetros quadrados, seguido de perto pelo Pará com 288 quilômetros quadrados.
Madeireiras que receberam exemplares de madeira com os chips foram fechadas pelo Instituto. O caso é acompanhado pelo Ministério Público Estadual (MPE). Mas conforme o promotor Danilo Vieira, ‘crimes ambientais são tidos como aqueles de menor potencial ofensivo’. Na prática, quem é flagrado cometendo situações desta natureza não é preso.

Fragilidade

 Ao mesmo tempo em que o Ibama diz estar mantendo o cerco contra os desmatadores em Mato Grosso, o diretor de Proteção Ambiental chama atenção para a necessidade de atuação conjunta com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). O Ibama cobra da Sema mais empenho na fiscalização de empreendimentos do setor madeireiro.

“Quando os estados não cumprem sua função, nós vamos lá e fazemos. De acordo com a Lei Complementar 140 quem fiscaliza é quem licencia. Não é uma crítica aos servidores da Sema, mas é o sinal de uma fragilidade uma vez que se tem que cumprir a lei”, ponderou o diretor do Ibama.
Ao G1, o secretário de Meio Ambiente de Mato Grosso, Vicente Falcão, disse que o estado tem fiscalizado madeireiras, e que uma das formas de descobrir se atuam na ilegalidade é por meio do sistema que regula a entrada e a saída de madeira das empresas. Mas ele critica a participação de empresários em esquemas criminosos. "Só se comete a falha se alguém do setor receber", alertou.
O caminho da madeira
Chips instalados em toras ajudaram o Ibama a registrar o movimento das madeiras que foram extraídas. Infratores aproveitavam especialmente o período noturno para carregar os caminhões. De acordo com o Ibama, estima-se que pelo menos nove das 45 serrarias instaladas entre Cláudia e União do Sul recebem madeiras furtadas.
Valores pagos na madeira estimulam o consumo ilegal, segundo o Ibama. Se em estágio bruto uma tora chega a valer R$ 180 o metro cúbico, quando chega ao mercado consumidor final pode valer até R$ 1,9 mil o metro cúbico.
A ministra do Meio Ambiente, Isabella Teixeira, cobrou o envolvimento dos estados e municípios na luta pela preservação do meio ambiente. "Os estados precisam atuar na fiscalização", citou. Toda a movimentação da madeira foi exibida durante o quadro Câmera JH.
Sindusmad lamenta
O Sindicato das Indústrias Madeireiras do Norte de Mato Grosso (Sindusmad) informou por meio de nota "lamentar os fatos veiculados em mídia nacional referentes ao roubo de toras na propriedade, repudiando atos criminosos, seja os praticados por ladrões de toras, seja os relativos e decorrentes de disputas de terras".
De acordo com o sindicato, "nenhum dos envolvidos [empresários que recebiam madeira ilegal] é filiado ao Sindusmad". Além disso, afirma que "se no decorrer da investigação algum for identificado, será sumariamente excluído".