Auxiliares de limpeza revelam desafios do trabalho em Manaus

José Raimundo Júnior afirma já ter encontrado um feto em meio ao lixo.
Auxiliares de limpeza revelam preconceito da população com a profissão.

Tiago Melo Do G1 AM
Semulsp afirma que sujeira pós-final de semana é comum na praia (Foto: Altemar Alcantara / Semcom)
Auxiliares de limpeza criticaram a falta de cuidado da população de Manaus com o lixo (Foto: Altemar Alcantara / Semcom)
Contratados para realizarem a limpeza e a conservação de edifícios, vias, praças e outros locais públicos, os auxiliares de limpeza enfrentam diariamente os desafios de fazer um trabalho pouco valorizado por uma parte da população e que os expõe a riscos diários.
José Raimundo Júnior, de 39 anos, há oito anos trabalha como auxiliar de limpeza. “Uma das coisas mais absurdas que já recolhi em um saco de lixo foi um feto humano. Foi horrível, cheguei a passar dias com a imagem na cabeça”.

Trabalhando há onze anos no serviço de coleta de lixo em Manaus, o maranhense José Francisco da Silva, de 52 anos, consegue sustentar a família com o trabalho de auxiliar de limpeza. Porém, segundo ele, a profissão já o colocou em risco de vida. “Certa vez, durante uma noite em que estava coletando lixo, encontrei uma granada. Quando percebi o que era, eu tratei de chamar logo a polícia. Para minha sorte, a granada não funcionava mais”, contou o servidor.
Imagens de igarapés poluídos impressiona. Grande quantidade de lixo é preocupante (Foto: Carlos Eduardo Matos/G1 AM)Auxiliares de limpeza sofrem preconceito por parte da população em Manaus (Foto: Carlos Eduardo Matos/G1 AM)
Francisco, que também já trabalhou na limpeza de igarapés brincou ao dizer que só faltou encontrar uma casa com a família dentro de um igarapé manauara. “Já encontrei de tudo: colchão, sofá, geladeira, mesa, poltrona, cadeira. Só não tinha a casa, porque estavam todos lá”, brincou Francisco.

Acostumados a lidar diariamente com lixo produzido pelos moradores de Manaus, Francisco e Júnior contam que falta consciência ambiental à população . “Nesses oito anos de serviço, percebi uma leve mudança no hábito do manauara, mas nada que melhore a situação no geral. Por exemplo, em certos casos, se passarmos uma hora depois na mesma rua que fizemos a limpeza, ela já estará suja novamente”, contou Júnior. Francisco, mais pessimista, não vê progresso. “O exemplo foi visto durante a última cheia: milhares de garrafas e lixo  represados nas pontes”.

Quando questionados se o desenvolvimento social das pessoas influencia na forma como elas despejam lixo, os servidores concordaram pelo não. “Não tem muita diferença, quase nenhuma na verdade. É comum ver lixo sendo atirado pela janela de dentro de carros de luxo. A diferença está no acondicionamento. Pois o 'pessoal da grana' se preocupa em colocar o lixo em saco fechado”, contou Júnior. “Não acho que seja questão de desenvolvimento social ou econômico, é uma questão de educação. Tem pessoas humildes que tem mais preocupação com meio ambiente e limpeza do que pessoas ricas e letradas”, completou Francisco.

A educação se reflete também no tratamento dado pelas pessoas aos auxiliares, segundo os auxiliares de limpeza. “Muitos nos tratam por nomes chulos como lixeiros, garis, urubus e outros nomes. É uma total falta de respeito com a gente”, conclui Francisco.
Cerca de 55 toneladas de lixo são retiradas de igarapés todos os dias (Foto: Carlos Eduardo Matos/G1 AM)Acúmulo de lixo foi sentido com a cheia dos rios neste ano (Foto: Carlos Eduardo Matos/G1 AM)