Novas tecnologias de saneamento buscam reaproveitamento de água

Drenagem sustentável combate o desperdício e protege o meio ambiente


Tatsuo Shubo (Foto: Divulgação)Tatsuo Shubo explica técnicas de tratamento de
água e esgoto (Foto: Divulgação)
Um dos grandes problemas atuais nos centros urbanos é a questão do saneamento básico. Estudos internacionais mostram que a carência de água potável representa uma ameaça para a saúde e para o meio ambiente. No Brasil, o Artigo 3º da Lei nº 11.445/07 considera saneamento básico como o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem e manejo das águas pluviais.
“Ao se falar de abastecimento, esgotamento e drenagem, o cerne da questão é, fundamentalmente, água”, ressalta Tatsuo Shubo, assessor da vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Na maioria dos casos, a grande concentração populacional é a responsável pela forte pressão sobre os recursos hídricos, tanto em quantidade, quanto em qualidade. “A cada dia a água precisa ser captada mais longe, pois além da necessidade de volumes cada vez maiores, a qualidade da água decai vertiginosamente, aumentando os custos de tratamento”, explica Tatsuo.
Por conta disso, se torna cada vez mais necessário o desenvolvimento de novas técnicas e sistemas de tratamento de água e esgoto para atender às populações mais afetadas pela carência na distribuição de saneamento básico. Conheça algumas delas:
Reutilização da água: Por conta da distribuição desigual da água, muitas vezes, onde há água, não há tanta gente - por exemplo, na Amazônia - e onde há muita gente não há tanta disponibilidade hídrica – como na Região Sudeste do país. “Resta-nos usar a água com racionalidade, reutilizando este bem, sempre que possível”, observa Tatsuo. A reutilização da água precisa seguir critérios básicos: segurança à saúde, estética, proteção ambiental e viabilidade técnica e econômica. Uma forma que se destaca é o tratamento de esgoto de processos industriais, como os de produtos de carvão, petróleo, produção primária de metal, curtumes (onde se preparam couros e peles para industrializar), indústrias têxteis, químicas e de papel e celulose.
Outra forma é a conjugação do aproveitamento da água de chuva capitada em telhados e calhas com o reuso das águas cinzas – as que derivam de uso doméstico ou comercial, como de chuveiros, lavatórios de banheiro, banheiras, tanques, máquinas de lavar roupas e lavagem de autos –, que vai para um sistema de abastecimento paralelo ao da àgua potável. “Dada a imprevisibilidade da disponibilidade de chuvas, em atendimento aos critérios econômicos, torna-se mais viável a utilização deste sistema híbrido, que ajuda na redução da pressão hídrica e dos picos de enchentes nas cidades, além de proporcionar ganhos financeiros”, acrescenta Tatsuo.
Telhado verde (Foto: Divulgação/Renato Catiglia Feitosa/Fiocruz)Técnica de drenagem sustentável: telhado verde
(Foto: Divulgação/Renato Catiglia Feitosa)
Drenagem sustentável: A drenagem sustentável visa restabelecer parte das propriedades de absorção do solo por meio de técnicas que propiciam a infiltração da água de chuva, o que retarda os picos de cheia e aumenta a capacidade de recarga dos lençóis d’água. “Dentre as principais técnicas, podemos destacar, além dos telhados verdes, as trincheiras de infiltração, os jardins de chuva, os pavimentos permeáveis e os poços de infiltração”, exemplifica Tatsuo. Os telhados verdes, aliás, são os locais onde pesquisadores da Fiocruz fazem medições de redução de temperatura e retenção de água.
No Brasil, o uso de pavimentos permeáveis é tido como uma das principais técnicas de drenagem sustentável, apesar de ter custo em torno de 10% maior a tecnologia convencional. Basicamente, este sistema é composto de uma série de elementos vazados que, quando assentados, permitem que a água penetre nos espaços vazios e atinja o solo. “Suas principais vantagens são a redução do escoamento superficial, a melhoria das condições de evapotranspiração e a consequente redução das ilhas de calor”, ressalta Tatsuo.
Tratamento de esgoto (Foto: Divulgação/Fiocruz)Tratamento de esgoto aeróbio e esgoto tratado na
Fiocruz (Foto: Divulgação/Fiocruz)
Tratamento aeróbio e anaeróbio de esgoto: Em grandes cidades, o tratamento de esgotos domésticos é normalmente o lodo ativado. O trabalho consiste em um sistema no qual uma massa biológica cresce, forma flocos e é continuamente recirculada e colocada em contato com a matéria orgânica sempre com a presença de oxigênio – tratamento aeróbio. Esse processo acontece em unidades chamadas tanques de aeração, para onde o esgosto é levado. Nesses tanques, o ar é insuflado para manter um nível alto de oxigênio, o que faz as bactérias aeróbias agirem.
“O efluente desse reator, chamado lodo, é enviado para o decantador secundário, onde a parte sólida é separada do esgoto tratado. O lodo sedimentado retorna ao tanque de aeração ou é retirado para tratamento específico. Em média, esse processo remove entre 90% e 99% dos poluentes orgânicos presentes no esgoto”, explica Tatsuo.
Por sua vez, as cidades de pequeno e médio porte adotam, tradicionalmente, os sistemas anaeróbios, nos quais o consumo de energia se restringe basicamente ao bombeamento dos efluentes de esgoto, uma vez que não é necessário inserir oxigênio no processo. “A eficiência também é alta, atingindo patamares superiores à 85% de remoção de carga orgânica. Tanto os sistemas aeróbios, quanto os anaeróbios apresentam variantes nos processos, procurando adaptá-los às realidades locais e às necessidades de qualidade do efluente lançado”, completa.